NOSSO MAIOR PROBLEMA É O SE SENTIR DIFERENTE DOS OUTROS
Ser psicólogo significa ficar sabendo que as pessoas sofrem em silêncio por pensar que são problemáticas. E poucos além do psicólogo têm condições de saber o tanto que as pessoas sofrem por causa disso. Pois, na vida social do dia-a-dia, essas pessoas não aparentam problema algum, e muito menos deixam transparecer que sofrem em silêncio acreditando serem problemáticas. O psicólogo é um dos poucos com quem elas se abrem e falam a respeito. Portanto, ele é um dos poucos capazes de compreender a gravidade desse fenômeno. Pois, há pouquíssimo bom-senso na definição que as pessoas dão para ‘problema’. Geralmente, elas entendem que ‘problema’ é tudo aquilo que foi e está sendo criticado nelas com frequência pelos outros. Também é comum elas acreditarem que ‘problema’ é tudo que se encaixa num diagnóstico psiquiátrico. Será que eu sou bipolar? Será que sou esquizofrênico? Mal passa pela cabeça delas que os problemas tratáveis com a ajuda de um psicólogo são apenas aqueles que incomodam a própria pessoa, independentemente do que os outros pensam e independentemente de qualquer diagnóstico. Procurar um psicólogo por conta das reclamações dos outros não vai resolver o problema. Se a reclamação é dos outros, o problema também é deles. Se os outros reclamam tanto do nosso jeito de ser, talvez nosso problema não seja exatamente aquilo que eles criticam, mas o simples fato de nos incomodarmos tanto com o que eles dizem. Esse sim é um problema que pode ser tratado com a ajuda do psicólogo, se a pessoa quiser. Semelhantemente, independentemente de haver um diagnóstico psiquiátrico ou não, o tratamento com o psicólogo só terá sentido se a própria pessoa estiver infeliz com a vida que leva. Os diagnósticos psiquiátricos não explicam nada e não fazem com que ninguém se torne problemático por si só; a função desses diagnósticos é apontar possíveis direções para o tratamento, caso a pessoa esteja interessada.Mas, se a situação, seja ela qual for, estiver incomodando, então estamos diante de um problema. E estamos diante de um problema simplesmente porque a situação está incomodando. Após o caso ter sido descrito e explicado, o psicólogo precisa perguntar a razão do incômodo. E não será surpresa alguma descobrir que a razão do incômodo é simplesmente a sensação de aquela situação ou dificuldade nos tornar diferentes de todos os outros. As pessoas em geral acreditam que somente elas passam por certas situações ou sofrem com algumas dificuldades, e a razão de se sentirem problemáticas é justamente o sentimento de inadequação que isso lhes causa. Todos nós vivemos num mundo de aparências, um mundo em que nos esforçamos ao máximo por esconder nossas fraquezas. Raras são as pessoas que falam abertamente de suas dificuldades; raras são as que não têm vergonha de mostrar suas falhas. No entanto, não somos capazes de fugir da humanidade que existe em cada um de nós, essa humanidade cheia de medos e dificuldades que muitas vezes não enxergamos nos outros; e o sentimento de inferioridade que se enraíza a partir daí passa a ser o verdadeiro problema. Na verdade, talvez esse seja o grande e único problema que nos aflige.
Nascemos num mundo em que as pessoas se esforçam por esconder o que sentem e o que pensam. Assim, nascemos num mundo repleto de condições para nos sentirmos sozinhos e diferentes dos outros. Cada um de nós, no fundo, é ressentido com o mundo por causa disso; alguns mais, outros menos; mas, o ressentimento é universal, creio eu. Porém, se por um lado cada um de nós se ressente com esse jeito de todo mundo ser, por outro cada um de nós também se tornou parte do mesmo problema que tanto nos magoa. Pois, nascidos num mundo governado pela aparência de perfeição, nós também nos esforçamos por passar a imagem de perfeição a todos; nós também aprendemos a esconder nossos sentimentos, maquiar nossas falhas, diminuir nossas dificuldades; também nos tornamos, para os outros, a causa de eles se sentirem diferentes de todo mundo. Não adianta reclamar das pessoas e esperar que elas mudem; não adianta esperar que elas se tornem mais abertas e sinceras a respeito de seus sentimentos para fazermos o mesmo. Em cada pessoa existe alguém que está esperando a mesma iniciativa de nossa parte. Todos esperam que os outros comecem a fazer primeiro; e, se todos esperam, ninguém faz nada. É preciso perder o medo de mostrar nossas fraquezas, nossas falhas, nossos medos, nossas dificuldades. Não adianta responsabilizar o mundo por não sabermos fazer isso. O mundo é feito de outras pessoas que também não sabem fazer o mesmo. Se ninguém sabe fazer, é preciso que todos aprendam. E isso é o tipo de coisa que a gente aprende só de ter a vontade sincera de aprender a fazer.
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